A crença infundada na capacidade futura

Se tem um erro de julgamento e tomada de decisão claramente previsível em nós humanos, é essa coisa de acreditar que lá na frente vai ser muito mais fácil fazer algo que adiamos agora. Isso aparece em vários aspectos da nossa vida. É a tal da crença infundada na capacidade futura.

Olhando com minha polianice, gosto de pensar que é porque somos otimistas (taí outro assunto sobre o qual quero escrever em breve). Mas a verdade é que depositamos muitas expectativas em nosso eu futuro. Afinal, nós queremos ser perfeitos e sem falhas um dia, não queremos? Por um mundo de fadas sem defeitos! Mas amanhã, não hoje.

Pensamos em nós mesmos no futuro como pessoas ideais e ignoramos uma série de coisas que irão fazer com que amanhã tenhamos os mesmos desafios que temos hoje. Preocupações, pressão social, expectativas, estresse com o trabalho, com os relacionamentos, humor variando (o nosso e o dos outros), imprevistos financeiros etc.

Tomada de decisão intertemporal e autocontrole

🍕 “Já que furei a dieta ontem mesmo, vou pedir uma pizza hoje e na segunda começo pra valer.”

🛍️ “Vou aproveitar essa promoção pra comprar umas roupas que estou precisando, e no mês que vem sem falta começo a juntar dinheiro pra viagem.”

Tem uma série de fenômenos psicológicos envolvidos nesses comportamentos. Sabemos que em tomada de decisão intertemporal, ou seja, quando fazemos escolhas com efeitos distribuídos ao longo do tempo, tendemos a descontar (aplicar uma taxa de desconto) a espera por um bem ou recompensa. Damos mais valor à gratificação imediata e temos dificuldade de perceber o valor dos comportamentos que não trazem retorno na hora. É o que chamam de viés do presente, ou present bias.

A interseção entre esses estudos de tomada de decisão intertemporal e a investigação do autocontrole é um tema que eu pessoalmente adoro.

Ao que tudo indica, cada pessoa tem uma taxa de desconto de acordo com suas preferências individuais. Essa função de desconto pode ser entendida como… a paciência! Ou a propensão a autocontrole de uma pessoa.

Capa do livro de Walter Mischel "O Teste do Marshmallow - Por que a força de vontade é a chave do sucesso"
Leitura bastante agradável pra um panorama geral sobre autocontrole

Um livro que é uma delícia de ler e que trata desse tema com muita seriedade é “O Teste do Marshmallow”, do Walter Mischel. Os vídeos com as crianças são fofinhos e o design do experimento é incrível, eu sei, mas a discussão dos fatores envolvidos no autocontrole é bem mais profunda, e nesse livro ele faz um apanhado completo de uns 30 anos de pesquisa nesses temas. Inclusive com resultados de pesquisas longitudinais, que é como se chamam os estudos que acompanham as variáveis monitoradas nos participantes ao longo do tempo.

Presente e futuro

O que pessoalmente acho muito curioso é como lidamos com as noções de passado, presente e futuro. Vivemos ansiosos com o futuro e lembrando do passado. Sabemos como é importante estar presente no presente, e ao mesmo tempo, como é difícil! Pra mim o boom de apps de meditação é um indicador relevante de que reconhecemos essa dor.

Será que se pudéssemos ter mais controle do que planejamos para o nosso presente, não diminuiria a ansiedade com nosso futuro?

Acreditamos que lá na frente seremos incríveis e agiremos do jeito que planejamos. “Fazer hoje é difícil, mas amanhã será mais fácil”, é assim que enganamos a nós mesmos, sem querer. Somos especialistas em economizar energia, e isso não é algo ruim. Graças a essa característica, chegamos até aqui.

O problema é a cilada em que podemos cair ao colocar expectativas muito altas no futuro e não vê-las concretizadas. É lidar com a frustração e outras consequências variadas. Porque, caso ainda não tenha ficado claro, não, não vai ser mais fácil amanhã do que seria hoje.

Self-control is not a problem in the future. It’s only a problem now.

Essa frase é do Shlomo Benartzi, no TED Talk “Save For Tomorrow, Tomorrow”.

Pra contornar essa nossa tendência à crença infundada na capacidade futura, precisamos entender claramente nossas motivações e adotar uns hacks de comportamento pra facilitar tomar a atitude que planejamos tomar, por maior que seja a tentação, no presente, jogar a toalha. Tentar trazer um gostinho de gratificação imediata a comportamentos com benefícios futuros pra diminuir o gap entre intenção e ação.

Em outro momento quero trazer alguns estudos divertidos que mostram como nossas preferências variam no presente e no futuro moduladas por nossa crença infundada na capacidade futura, como o famoso estudo envolvendo escolha de banana ou chocolate. E exemplos de intervenções que mostram que podemos ajustar algumas coisas para alcançar os resultados que buscamos, como o experimento Save More Tomorrow de Richard Thaler e Shlomo Benartzi.

É bem fácil pensar nesse tema com exemplos de alimentação, exercícios físicos, saúde e comportamento financeiro. Refletindo sobre isso esses dias, pensei em um exemplo diferente: que baita responsabilidade são os votos que fazemos ao nos casarmos com uma pessoa!

Se a quantidade de divórcios é um indicador da nossa crença infundada na capacidade futura, podia rolar um ajuste nos votos matrimoniais pra serem um pouco menos, digamos, absolutistas. Afinal, essa grande decisão intertemporal (a mais importante das nossas vidas, talvez) é complexa pra caramba e repleta de incertezas, não é não? 😂

Pra fechar, uma dica útil: se você precisa começar uma dieta, não comece na segunda-feira.

2 comentários sobre “A crença infundada na capacidade futura

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