Foto de Isabella Paschuini com livros ao fundo para a capa do artigo sobre como planejou um período sabático

Como me planejei para um período sabático

Há pouco mais de um mês iniciei algo inédito na minha vida pessoal e profissional: um período sabático.

Vou ser sincera com vocês, não gosto muito da palavra “sabático”. Ela vem do hebraico shabat e significa descanso, o que, como vocês vão ver, não é exatamente o que acontece no meu dia a dia. Então tenho preferido falar que iniciei um gap year*.

Sabático ou gap year, o fato é que ter tomado essa decisão não foi algo simples. Envolveu muito planejamento e preparação. Não à toa, ao contar meus planos para as pessoas, a reação mais comum tem sido:

— Nossa, admiro sua coragem!

Sei que muitos têm vontade de fazer essa mesma loucura um dia, então resolvi dar uma visão geral dos principais pontos que me motivaram a planejar esse período. Sinto que aprendi bastante com o processo e quero compartilhar o que foi essencial para que esse plano “corajoso” se tornasse realidade.

1) Tudo começa com o porquê

Faz alguns anos, umas ideias ainda meio vagas começaram a surgir na minha cabeça. Eram mais como perguntas.

Eu observava os comportamentos dos clientes em lugares onde trabalhei e ficava tentando entender o que fazia eles tomarem atitudes em relação ao próprio dinheiro. Ou por que essas atitudes às vezes pareciam tão impulsivas, ou incoerentes. Ou como era possível que conexões emocionais refletissem um impacto tão forte no engajamento com a marca e o produto. Aliás, o que poderia fazer com que essas conexões fossem criadas? Como empresas podem se conectar emocionalmente com as pessoas, indo além de uma relação puramente transacional? Será que isso é um diferencial competitivo para o negócio? O que acontece nas nossas cabeças? Como decidimos? O que nos faz agir?

Poderia facilmente listar aqui umas 150 perguntas, mas vamos deixar para outro artigo.

O fato é que isso me motivou a buscar respostas. Na tentativa de começar a entender as bases do nosso comportamento, estudei Neurociência Básica como aluna especial na USP em 2017**.

Enquanto continuava mergulhada no universo de conteúdo ligado a tecnologia, serviços financeiros e finanças pessoais, decidi em 2018 que faria uma especialização em Neurociência e Psicologia Aplicada. Lembro como contei sobre isso para o meu chefe um dia na saída do escritório:

— Vou começar essa pós porque gosto muito desse assunto. Mas não vou levar a sério, não. Vou para as aulas como quem vai tomar um chope! E se a empresa precisar de mim até mais tarde em dia de aula, sem problema, eu falto.

A parte de faltar a aula se necessário era verdade, aconteceu algumas vezes. Mas a parte do “não vou levar a sério” se mostrou um grande erro de previsão da minha parte, como os fatos comprovam.

Conforme eu ia tendo mais contato com o estudo do comportamento humano, a realidade das pessoas lidando com o dinheiro, e os desafios do ambiente de negócios, as coisas foram se encaixando na minha cabeça. Coloquei meus valores pessoais no meio da história e me peguei cada vez mais imaginando o futuro em que acredito e como eu poderia contribuir para ele.

Então aqueles pensamentos que eram meio vagos foram convergindo para uma ideia fixa na minha cabeça: se entendermos melhor o que está por trás dos nossos comportamentos e decisões, e o poder das emoções para nos fazer agir, podemos nos tornar versões melhores de nós mesmos. Se as empresas, governos e organizações em geral entenderem isso, negócios, iniciativas e políticas do bem podem transformar as vidas das pessoas e gerar valor de verdade para os dois lados.

Já disse Simon Sinek: tudo começa com o porquê. Eu não conseguiria fazer esse move sem ter claras minhas motivações. Olhando em retrospectiva, vejo que a decisão que tomei foi reflexo de alguns anos de interação intensa e questionamento da realidade ao meu redor, que constantemente colocava à prova minhas próprias ideias.

Pra construir o ambiente de aprendizado contínuo necessário para maturar esse projeto, eu precisava montar um plano.

2) O planejamento é a parte mais importante

Talvez eu esteja enganada em chamar de período sabático o plano que montei. Normalmente as pessoas tiram sabáticos para viajar pelo mundo, conhecer novas culturas, se dedicar a hobbies ou ações sociais. Eu planejei, digamos, um sabático funcional, que muito provavelmente irá resultar em uma transição de carreira.

Tendo clareza da minha motivação e a certeza de que iria investir meu tempo e meu dinheiro em algo em que acredito, comecei a planejar o gap year. Minha expectativa era ter recursos e condições para aprender bastante e explorar melhor a tal da ideia fixa na minha cabeça. Descobrir quais frutos ela poderia me render. Aproveitar a jornada.

Montei um plano estruturado em quatro eixos principais: estudos no Brasil e no exterior, pesquisa acadêmica, projetos aplicados com empresas que acredito que têm potencial para transformar as vidas das pessoas, e trabalho voluntário.

Busquei desenhar para mim mesma uma experiência diversa e multidisciplinar, com os assuntos e campos do conhecimento que eu considero mais importantes, para lá na frente ter uma caixinha de ferramentas que me preparará, de alguma forma, para colocar minhas ideias em prática.

A programação do meu gap year envolve aproximações com os campos de behavioral science, economia comportamental e experimental, neuroeconomia, psicologia econômica, finanças pessoais, empreendedorismo e inovação e gestão de produto, dentre outras áreas. É entender como as pessoas se comportam, tomam decisões e lidam com o dinheiro, bem como o que é preciso para desenvolver produtos e serviços que mudam pra melhor o comportamento das pessoas.

Mapeei todos os custos que teria com meu plano, inclusive o custo de oportunidade, que era o meu salário

Tem uma parte da preparação que posso dizer que começou bem antes de eu imaginar que um dia iniciaria um sabático. É a preparação financeira. A não ser que você seja rico e dinheiro não seja uma preocupação, não dá para tomar uma decisão dessas sem ponderar as consequências.

Mapeei todos os custos que teria com meu plano, inclusive o custo de oportunidade, que era o meu salário e outras remunerações ligadas ao trabalho. Decidimos que essa minha experiência seria financiada por parte do dinheiro que meu marido e eu investimos juntos para nossa aposentadoria. Sim, desde os 26 anos de idade guardamos dinheiro para o dia em que iremos parar de trabalhar, e isso foi determinante para a tal da coragem de reduzir minha renda a zero por um período.

3) Ter uma rede de apoio é essencial

Eu sei que rede de apoio é uma expressão usada por pessoas que têm filhos, mas, resguardadas as proporções, montar um projeto de gap year deve ser tipo planejar um filho. É uma mudança muito grande na vida.

Se você decide seguir sozinho o tempo inteiro, perde a oportunidade de contar com visões diferentes que irão agregar pontos relevantes à jornada. Assim como uma criança que não tem contato com mais pessoas além dos pais provavelmente não está sendo estimulada de maneira tão rica quanto poderia.

Tenho a felicidade de ao longo dos últimos anos ter criado verdadeiros amigos em minhas experiências profissionais. Pessoas que admiro, que me influenciam positivamente, e com quem sempre troquei ideias e aprendi muito. Compartilhei meus planos com elas desde cedo, e seguimos com as trocas, agora com o bonde andando. Quando tenho uma decisão difícil a tomar, consulto essas pessoas, reúno perspectivas diferentes. Sinto que isso me deixa mais preparada. Espero conseguir retribuir um dia toda essa atenção, carinho e boa vontade.

Também tenho percebido como é importante construir novas conexões. Encontrar as novas tribos às quais se pretende pertencer. Buscar pessoas que tiveram uma trajetória parecida com a que você quer construir. Faço isso inclusive para me inspirar e vislumbrar possibilidades de atuação no futuro. 

Sem contar o apoio da família e dos amigos mais próximos. Sei que nem sempre eles entendem meus planos tão bem quanto os amigos que estão no mercado, mas me apoiam mesmo assim e isso dá mais energia ainda para seguir com os objetivos!

4) É preciso resiliência para lidar com o incerto

Não sei como consegui escrever até agora sem falar da pandemia de coronavírus e de como ela vem afetando meu plano.

Evito reclamar porque sei que sou privilegiada. A forma como a pandemia alterou meus planos em nada se compara ao desafio das pessoas que precisam sair para trabalhar e se expor à doença ou aos que estão perdendo seus empregos, e ainda temos pela frente uma grande crise econômica para lidar.

Com essa consciência, vou ilustrar com exemplos como precisamos de resiliência e preparação para lidar com o incerto. Algumas coisas que saíram fora do programado:

  • O orçamento inicial que montei para meu gap year aumentou, até agora, em pelo menos 20% com a alta do dólar, em paralelo a um momento de grande instabilidade no mercado financeiro.
  • Todas as minhas viagens foram suspensas por conta da pandemia. Essa era uma parte importante do plano, pois me permitiria respirar novos ares, conhecer novas pessoas e praticar o inglês. Um curso que faria em São Francisco já está rolando remotamente. Um programa para o qual fui aprovada em Stanford acontecerá online, e por diversos motivos decidi não seguir. Meus estudos na University of Copenhagen durante todo o mês de agosto também serão por vídeo, fui informada nesta semana.
  • Minha experiência no laboratório de pesquisa onde teria contato com experimentos acadêmicos também está suspensa. O laboratório está fechado, claro.
  • O trabalho voluntário, que me permitiria um contato mais vívido com as dores reais das pessoas, não está rolando. Contribuo com uma ONG que atua nas escolas públicas para levar educação financeira a adolescentes, mas as escolas estão fechadas. 

Por mais cenários que o meu planejamento considerasse, jamais poderia prever o que está acontecendo no mundo hoje.

Diante do incerto, vim ajustando o plano como possível. Antecipei atividades que podem ser tocadas remotamente e estavam previstas para o segundo semestre, e já estou redesenhando o plano para durar um período maior que os 8 meses inicialmente planejados. 

Isso sem falar da própria incerteza inerente aos meus próximos passos na carreira.

Enquanto fora do Brasil vemos diversas empresas com iniciativas robustas para o estudo do comportamento dos clientes, inclusive com C-levels em Behavior, por aqui as iniciativas são tímidas ainda. Isso significa um esforço maior em vender as ideias nas quais acredito. 

Mesmo com tudo isso, e o estresse que me acomete às vezes, sinto uma certa tranquilidade. Como as bases estão sólidas, as tempestades podem até desviar o trajeto, mas não irão capotar meu barco.

5) E flexibilidade pra ajustar a rota

Não é apenas a pandemia que me obriga a ajustar meu plano constantemente. As oportunidades continuam aparecendo, e quero estar aberta a elas.

Na nossa trajetória profissional, tem uma parte está sob nosso controle: decidir o que fazer, como, quando. Tem outra parte que não controlamos, que vem dos outros e que são fruto do nosso esforço ao longo do tempo e dos relacionamentos construídos. Não é porque tenho um plano bem montado que irei fechar os olhos a oportunidades. Esses são problemas bons que volta e meia aparecem.

É preciso ter sempre clareza das motivações que me fizeram chegar até aqui

Desde antes de começar o gap year, recebi convites incríveis para desafios totalmente alinhados aos meus valores. Em empresas em que acredito, com grande potencial de crescimento. Decidi declinar. Doeu um pouco. Mas é preciso ter os pés no chão.

Sabe aquela clareza das motivações que me fizeram chegar até aqui, que falei lá em cima? Então, preciso ter ela em minha cabeça o tempo todo.

Pode ser que em algum momento eu decida por uma mudança de rota mais radical. Os cenários podem mudar. Pode ser que alguma oportunidade apareça e eu decida me abraçar a ela, mesmo que isso signifique abortar parte do plano. Espero que se algo assim acontecer, eu tenha a certeza de ter ponderado bastante e decidido com a mente tranquila.

6) Disciplina é liberdade

Adoro esse verso da música “Há Tempos”, da Legião Urbana, porque sintetiza com uma elegância linda, em três palavras, algo em que acredito muito.

Na minha vida, sempre precisei de muita disciplina e motivação para pensar grande e chegar onde queria. Não nasci em berço de ouro. Na verdade, nasci no subúrbio do Rio e vivi minha infância na favela do Barbante. Estudei em escolas públicas do ensino fundamental até o superior. Se nunca me faltou nada, é porque tenho pais batalhadores e uma família incrível que sempre reuniu forças para o bem de todos.

Desde cedo entendi que sem esforço e muita dedicação não se chega a lugar nenhum. Estou aplicando esse mesmo entendimento para “chegar em algum lugar” durante e após o meu gap year.

Agora sou eu quem controlo meus horários, e isso é uma delícia. Posso fazer uma pausa no fim da tarde, tomar um café e ver o pôr-do-sol. Mas a disciplina é mais essencial do que nunca para garantir que minha programação seja seguida.

Minha meta é estudar e trabalhar nos meus projetos por pelo menos 8 horas todos os dias. De segunda a sexta, me esforço para acordar antes das 6h porque me sinto mais produtiva, focada e inspirada pela manhã.

Uso ferramentas diversas para organizar e controlar meu tempo, como Todoist, Toggl, Google Calendar e uma planilha onde monto minha programação mensal de estudos e controlo minha produtividade. Comecei neste mês a escrever para registrar meus aprendizados e experiências durante esse período. Já li estudos que mostram que esse hábito de journaling é importante para manter a motivação e o foco. Para quem quiser acompanhar, meu blog é o Por Que Fiz Isso?.

Um período sabático não deve ser um fim em si, mas um meio para algo maior


Tudo isso que venho aprendendo me mostra o quanto, agora, sou eu quem dou o call. O que vou conquistar daqui pra frente depende de mim. Chamo de gap year, mas espero que de gap não tenha nada, e sim seja um período de muito crescimento pessoal e profissional. 

Não sei o que vocês pensam sobre a decisão de fazer uma pausa na carreira, como eu decidi fazer. Na minha visão, um período sabático não deve ser um fim em si, mas um meio para algo maior. É uma oportunidade de ouro que dessa vez não veio de fora. Ao contrário, é uma oportunidade que eu ofereci a mim mesma, para direcionar minha trajetória para os caminhos em que mais acredito.

*Escrevi sabático em vez de gap year no título porque sei que é uma palavra mais sexy e chamaria a atenção. Por esse mesmo motivo, peguei minha cachorrinha Nutella para aparecer na foto, aliás 😆 

**Ok, tenho que admitir uma certa heurística afetiva me influenciando desde o começo, porque adoro biologia. Digamos que uni o útil ao agradável.

Este artigo foi publicado primeiro no LinkedIn.

6 comentários sobre “Como me planejei para um período sabático

  1. Gostei muito de seu relato! Desejo sucesso, perseverança na obtenção dos resultados desejados e muito conhecimento obtido com essa nova experiência de vida. Parabéns! Ah!, vai informando no seu Blog as etapas de seu gap year. Abçs! Luiz Gustavo

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