A tal da saliência e as vidas que importam

Antes de começar a estudar neurociência, saliência pra mim era só uma palavra engraçada que não fazia parte do meu vocabulário cotidiano. Uma forma divertida e meio tosca de falar do atrevimento sexual de alguém, ou talvez da gordurinha sobrando na barriga.

Depois me acostumei a compreender a palavra saliência como uma propriedade de um estímulo cognitivo, e seu significado mudou completamente para mim. Hoje, saliência é a minha palavra preferida para entender por que alguns estímulos geram uma grande mobilização social, ao passo que outros não.

Um barulho mais alto, uma cor mais forte, um cheiro diferente, uma notícia chocante. Quanto mais intensamente um estímulo evocar nossas emoções, mais saliente ele será. Nós reagimos mais rápido e mais intensamente a estímulos que atingem nossas emoções com mais força. Esse tipo de reação está ligado à adaptação evolutiva que nos permitiu chegar até aqui.

Definição da palavra saliente no dicionário
Penso que a definição 2 é a mais apropriada para falar dos estímulos que nos movem (embora eu só conhecesse a 4 até há poucos anos atrás)

Pandemia saliente

No começo de 2020, o mundo parou por conta da pandemia do novo coronavírus. Grandes nações mobilizaram quarentenas e lockdowns. A ameaça da morte era real para qualquer ser humano. Isso é um estímulo muito saliente.

Um colega comentou que seria interessante usarmos essa mesma mobilização contra o novo coronavírus para, resolvida a pandemia, brigarmos contra a desigualdade e o aquecimento global. Por que isso não vai acontecer? Falta saliência.

Nós descontamos o valor de ações cujos benefícios que só aparecerão no longo prazo. Queremos resultados imediatos. É o viés do presente.

Um estudo clássico da década de 1990 demonstra esse viés atuando bem forte. Os pesquisadores perguntaram às pessoas quanto elas pagariam por um seguro contra terrorismo em um voo. E quanto elas pagariam por um seguro que cobrisse qualquer ocorrência no mesmo voo. Em média, elas pagariam mais caro pelo seguro contra terrorismo. É um baita erro de julgamento, eu sei. Mas leia de novo, com calma, esta palavra: ter-ro-ris-mo. Já desperta sentimentos, não é mesmo?

Voltando ao comentário do colega, a pergunta é: como conseguimos tornar mais salientes questões como desigualdade e aquecimento global para que possamos nos mobilizar de forma mais efetiva em torno delas?

George Floyd e vidas que importam

Hoje as redes sociais de todo o mundo estão mobilizadas em torno da #BlackOutTuesday. Qual estímulo poderia ser mais saliente para nos fazer pensar o racismo do que o vídeo — uma transmissão ao vivo — de George Floyd sendo executado pelo joelho de um policial branco?

O resultado é um efeito manada de pessoas compartilhando quadrados pretos nas redes sociais, e eu acho essa resposta incrível. A saliência do fato chama a atenção ao que precisa ser notado. Transmite a mensagem antirracista que precisa ser dita, pois infelizmente não é óbvia como gostaríamos que fosse.

Um amigo me contou que se sente culpado por “participar desse tipo de corrente agora por causa da morte de uma pessoa nos EUA e nunca ter feito antes enquanto esse tipo de violência racial acontece praticamente todo dia no país e nas cidades onde vivo e onde nasci”.

Eu entendo o ponto dele. Parece irracional, meio sem lógica da nossa parte, não é mesmo? Concordo. Mas é assim que nós somos. Já cansei de buscar racionalidade. Prefiro compreender e abraçar o modo como somos e direcionar nosso comportamento para o bem.

O mundo é uma grande overdose simultânea de estímulos e nós respondemos aos mais salientes. Nosso desafio é como não depender exclusivamente disso para brigar pelo mundo que queremos para as próximas gerações.

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