Eu lendo um paper sentada no chão da sala

Um balanço dos três primeiros meses do meu gap year

Clichês existem por um motivo, e eu não posso resistir a um clássico pra começar este relato: como o tempo passa rápido, gente!

Em abril iniciei um período sabático que não é sabático. Tipo o suco de tamarindo que tem gosto de limão, do Chaves.

Já se passaram quase 100 dias, mas pra mim parece até que passou mais!

Aproveitei o marco pra fazer um balanço sobre o que rolou nos últimos três meses, entrar nos detalhes e compartilhar com vocês as conquistas e aprendizados desse período.

Planos existem para serem ajustados (e parece que isso é ótimo!)

Um dos meus primeiros desafios quando comecei o sabático foi trabalhar na reorganização das atividades que havia programado.

Eu tinha distribuído minhas atividades em quatro eixos principais: estudos, pesquisa, projetos aplicados e voluntariado. Minha ideia era mandar ver nos estudos nesses primeiros meses, pra depois aplicar tudo que fui aprendendo.

Mas acontece que moramos em um lugar caótico e imprevisível chamado Terra. Lugar este habitado por seres que esperam um futuro incrível enquanto vacilam no presente, os humanos. (Por que é tão divertido falar em terceira pessoa?)

Por conta da pandemia de covid-19, minhas viagens para cursos no exterior foram canceladas e o laboratório onde eu faria pesquisa está fechado.

Eu poderia ter ficado frustrada. Admito até que cheguei a cogitar alguns convites que apareceram para voltar a trabalhar. Mas mantive firme o foco, lembrei que o que importa é o meu objetivo final, e que existem diversos caminhos possíveis para chegar lá.

Tratei de ajustar o que era possível: antecipar atividades previstas mais para frente, e dar espaço a novas experiências que não estavam programadas inicialmente. Somando minha persistência com o fato de ter pessoas incríveis me apoiando nessa trajetória, outras oportunidades totalmente ligadas aos meus objetivos foram surgindo.

O resultado disso é que de certa forma consegui antecipar minha transição de carreira. Já estou atuando profissionalmente (“trabalhando” foi o que quis dizer e não tive coragem?) com projetos aplicados de ciências comportamentais e aprendendo bastante na prática.

Agora só falta conseguir equilibrar bem os outros eixos (estudos, pesquisa), e ouso dizer que o plano v2, ajustado por motivo de força maior, pode até ficar melhor que o plano v1, desenhado em 2019, num mundo que achava que uma quarentena era 40 dias.

O que andei estudando nos primeiros três meses

Não fosse pela pandemia, eu poderia estar escrevendo este texto de Stanford, onde estaria rolando agora um dos programas que planejei participar. Apesar dessa baixa no que era pra ser o segundo ponto alto do meu gap year, consegui estudar bastante remotamente nesses primeiros três meses.

Ah, o primeiro ponto alto, caso você tenha ficado curioso ou curiosa, era o summer course de Behavioral and Experimental Economics na Universidade de Copenhagen. Vai começar em agosto, vai até ser presencial, mas eu não vou poder entrar na Dinamarca. Essa baixa doeu de verdade.

– Behavioral Design (Irrational Labs)

O curso seria presencial em São Francisco, mas logo no comecinho da quarentena se organizaram para lançar uma versão online, e fiquei muito feliz! Até porque o custo foi uma fração do que era o presencial.

Rolou entre abril e junho e curti bastante o conteúdo e os meetings semanais por Zoom com um grupo de outros alunos de todo o mundo. O Irrational Labs foi cofundado pelo Dan Ariely e responsável por montar a nudge unit do Google. A Kristen Berman, a outra cofundadora, tem uma postura bem bacana de aplicar o conhecimento científico (aliás é dela o texto sobre Behavioral Product Manager que traduzi recentemente).

Aprendi a identificar um key behavior, a fazer um diagnóstico comportamental, mapear barreiras e construir percepção de benefícios dentro de uma lógica de muita experimentação e baseada em premissas da economia comportamental. Já estou me preparando para aplicar a metodologia do Irrational Labs em projetos futuros 😉

– Planejamento Financeiro Pessoal (Associação Planejar)

Aqui não tivemos mudanças: o curso já seria remoto. Assim como o de Behavioral Design, rolou entre abril e junho.

Vou ser sincera: de tudo que venho estudando sobre comportamento e finanças pessoais, esse conteúdo foi o menos estimulante. É como se fosse uma velha teoria normativa em um mundo totalmente descritivo que vem se abrindo aos meus olhos (economistas me entenderão).

De qualquer forma, aprendi coisas novas sobre finanças pessoais e espero um dia poder criar algo como um planejamento financeiro mais flexível, que considere as pessoas como pessoas mesmo, não como empresas.

– Product Management (PM3)

Incluí gestão de produto na minha programação porque se falo em usar o conhecimento do comportamento humano para construir soluções que gerem valor, é importante ter uma boa compreensão da parte “construir soluções”.

Decidi fazer o curso de product manager da Cursos PM3. O conteúdo desse curso é uma delícia, super completo (muito obrigada ao grande amigo Bruno Coutinho, cofundador da PM3, por ter me recomendado). E os professores são inspiradores, como o Joca Torres (General Manager do Gympass) e André Nery (Head de Produto do iFood) — pessoas que estão tocando desafios enormes em gigantes da tecnologia no Brasil, principalmente agora com a pandemia.

– Introdução à Psicologia Econômica (Prof. Vera Rita de Mello Ferreira)

A Vera Rita é a maior referência de psicologia econômica no Brasil e fazia tempo que eu tinha vontade de fazer os cursos dela. Com a quarentena, ela decidiu lançar uma versão online e eu logo me inscrevi.

Foi sensacional. Além de dominar muito o tema, a forma como a Vera se expressa e contextualiza os conceitos teóricos dentro da nossa realidade é muito inspiradora. Aprendi muito sobre psicologia e motivação no contexto de finanças pessoais e já até emendei com o curso de…

– Arquitetura de Escolha (Prof. Vera Rita de Mello Ferreira)

O contexto influencia demais a maneira como tomamos decisões e nos comportamos. Nesse curso, que acabou de começar, a ideia é aprender da teoria à prática sobre a construção de contextos que mudam o comportamento para melhor. O nome disso é arquitetura de escolha. Demais!

– Behavioral Finance (Duke University, Coursera)

Sinto que estou vendo conteúdos de behavioral finance (ou finanças comportamentais) o tempo todo, e eu realmente adoro esse tema!

Tanto que decidi fazer esse curso da Duke oferecido pelo Coursera pra me dar uma base até da parte mais de teorias econômicas, já que não venho da economia.

– Neuroeconomia (e mais três disciplinas da pós-graduação)

As aulas da minha pós-graduação em Neurociência e Psicologia Aplicada na Universidade Presbiteriana Mackenzie continuam rolando remotamente, e a disciplina de Neuroeconomia sem dúvida foi a minha preferida.

Meu professor, Gabriel Gaudêncio Rego, é sensacional. Estudei com bastante afinco e pretendo continuar estudando pra aprofundar cada vez mais o entendimento das circuitarias envolvidas em tomada de decisão social, intertemporal e sob incerteza.

Nesses últimos três meses, também tive/venho tendo aulas de:

  • Neurociência nas Instituições
  • Neurociência Aplicada à Educação e Aprendizagem
  • Neurociência, Saúde e Qualidade de Vida

Para além dos cursos formais, eu li/assisti/ouvi muita coisa e senti que foram super importantes para complementar o conhecimento (e me deixar cada vez mais apaixonada e certa desse caminho que tô seguindo).

Queria conseguir fazer uma lista delas. Mas não quero deixar aqui gigante. Vou ver se compartilho em outro momento pelo menos quais foram alguns dos livros, papers, relatórios, vídeos, documentários, artigos e podcasts preferidos.

Os projetos aplicados de economia comportamental

Desde maio os projetos têm consumido uma parte relevante do meu tempo e tenho aprendido demais com eles. Uma pena que não vou poder dar o mesmo detalhamento dos estudos. Afinal, são projetos com empresas e temos NDAs assinados, né?

Mas o que posso adiantar é que um dos projetos é com a InBehavior Lab, a principal consultoria de economia comportamental aqui no Brasil, fundada pela Flávia Ávila, a pessoa que trouxe o conceito de ciências comportamentais aplicadas pro Brasil e tem um track record de projetos incríveis. Já estou oficialmente na equipe de consultores associados e tenho aprendido, e trabalhado, e me divertido bastante!

O outro é com uma fintech que tem a missão linda de incentivar pessoas a construir o hábito de juntar dinheiro. Convidei meu amigo economista comportamental Antonio Matheus Sá, que conheci na pós, a se juntar a mim nessa empreitada voluntária na expectativa de termos impacto positivo na vida de milhares de pessoas a partir da aplicação do que temos aprendido sobre finanças pessoais e comportamento. Está sendo uma experiência bem bacana!

Agora no próximo semestre essa parte dos projetos aplicados deve continuar agitada. Fico super feliz com essas oportunidades, pois elas já representam minha transição de carreira acontecendo, ao mesmo tempo em que aprendo pra caramba com situações reais e ao lado de pessoas incríveis.

O voluntariado em educação financeira

Ingressei como voluntária na equipe do Multiplicando Sonhos no ano passado. A ONG atua levando educação financeira a jovens de escolas públicas de ensino médio na periferia de São Paulo.

Estava super empolgada para ter essa experiência das escolas, de estar perto dos alunos, manter o contato com uma realidade que pode ser bem mais complexa do que vemos nos estudos teóricos.

Sentir as dores de perto, ver as conquistas. Estudantes na condição que era a minha há anos atrás. Com uma vida inteira pela frente, e eu podendo colaborar de alguma forma com suas perspectivas de futuro. Isso me motiva tanto!

Bom, as aulas da rede pública foram suspensas junto com a quarentena. Não vai rolar tão cedo a experiência nas escolas. Por outro lado, assumi uma responsabilidade maior dentro do time de Comunicação e espero usar o conhecimento que já acumulei na carreira pra ajudar a Multiplicando Sonhos e contar sua história, ganhar visibilidade e inspirar cada vez mais pessoas!

A experiência com pesquisa experimental em laboratório

Aqui está meu maior gargalo hoje. Estava combinando, antes da pandemia, de ir para o Laboratório de Neurociência e Cognição Social da Mackenzie e construir um projeto de pesquisa experimental. Eu estava tão empolgada com isso! Com o laboratório da universidade fechado, o plano está suspenso.

Uma outra possibilidade à vista para manter proximidade do mundo da pesquisa acadêmica é colaborar como assistente voluntária de pesquisa no Centro de Matemática, Computação e Cognição da Universidade Federal do ABC. Um dos pesquisadores na área de neurociência cognitiva com quem conversei pela primeira vez em 2017 se mostrou super receptivo — e é possível que eu colabore remotamente em alguns projetos em andamento.

Outras coisas legais que aconteceram

Nesses primeiros três meses sinto que ampliei meus horizontes imensamente. Me conectei com pessoas que são referência na área. Tive muitas conversas enriquecedoras de troca de experiências. Com pessoas que vão desde um aluno de PhD de Harvard até o Head de Behavioral Finance de uma das maiores fintechs do Brasil. Espero um dia poder retribuir tudo isso, de verdade!

Tenho desenvolvido minhas habilidades de ser “entrona”, como gosto de dizer. Entro em contato, convido para um café (remoto), mostro como posso contribuir também. “O não eu já tenho” é o meu mantra.

Mas uma grande parte do networking eu devo (e como devo!) a amigos incríveis e contatos profissionais, às vezes nem tão próximos, que por pura boa vontade me ajudam com as conexões que preciso e com seus pontos de vista quando preciso tomar uma decisão. Ainda bem que tenho uma vida inteira para agradecer por isso!

Tem mais coisas rolando, o que me deixa bem empolgada com o futuro próximo. Mas por estarem ainda bem incipientes, é melhor deixar pra falar no próximo balanço trimestral!

Pra fechar, queria deixar aqui o link para o vídeo da live que fiz com o Invista Como Uma Garota, onde falo sobre várias coisas do meu sabático, mas principalmente sobre como estou conduzindo a parte financeira. (Aliás, muito obrigada à Aninha e à Vic, amigas queridas e fundadoras do Invista, com quem tanto aprendo, tanto troco, e que tanto me apoiam!)

Bom, esse é o resumo da história até aqui. Só uma parte dela, a melhor parte, na verdade. No dia a dia é claro que também tenho dias ruins.

Mas rapaz, digamos que, num overall, eu tô empolgada e grata demais por tudo que tá acontecendo 🤩

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