Paper sobre o gap entre intenção e ação e planning prompts

Querer é poder? O gap entre intenção e ação e os planning prompts

Se tem um tema dentro das ciências comportamentais aplicadas que tem me encantado são os chamados implementation intentions.

Admito que rola uma heurística do afeto pesada aí quando preciso tomar decisões relacionadas a… como tomamos decisões. Adoro estudar o gap entre intenção e ação (e pensar em como podemos estreitá-lo!).

Ontem li um paper que despertou ainda mais meu interesse pelo tema, o Beyond good intentions: Prompting people to make plans improves follow-through on important tasks (“Além de boas intenções: Incitar as pessoas a fazerem planos melhora o cumprimento de tarefas importantes”).

O que é um implementation intention?

Um implementation intention, ou intenção de implementação, é algo que tem por objetivo aproximar uma pessoa de ter um comportamento que ela pretende ter, ou criar um hábito desejado. É um compromisso que se assume de alguma forma.

Levando ao extremo, poderia ser um contrato assinado. Mas há evidências de que mesmo um plano simples (simples mesmo!) pode contribuir para diminuir o grande gap que em muitas situações existe entre intenção e ação.

De boas intenções…

Todos nós queremos ser saudáveis, ir aos médicos que sabemos que precisamos ir, fazer exercícios físicos três vezes por semana, usar protetor solar, usar os creminhos que compramos pra cuidar da pele, manter uma alimentação balanceada, cozinhar mais em casa, comer mais frutas e vegetais, tomar os remédios direitinho, juntar dinheiro para o futuro (mesmo que seja o futuro ali do mês que vem)…

Também queremos ser verdadeiras máquinas de produtividade e resultado no trabalho, ler mais livros, estudar mais assuntos, aprender um novo idioma, fazer trabalho voluntário, assistir aos documentários inteligentes que colocamos na lista da Netflix e… enviar mais cedo a declaração anual do Imposto de Renda.

Não restam dúvidas de que queremos muito tudo isso. Mas daí até a intenção virar ação são outros quinhentos. Viés do presente, desconto hiperbólico e a crença infundada na capacidade futura explicam.

Os planning prompts

A revisão de literatura feita no paper de Todd Rogers, Katherine Milkman, Leslie John e Michael Norton conclui que fazer pequenos planos (os chamados planning prompts) pode nos ajudar a ter mais sucesso em tarefas como essas acima, nas quais temos certeza absoluta da nossa intenção, mas uma dificuldade grande em executar.

Um estudo famoso feito nas eleições presidenciais de 2008 nos Estados Unidos comprovou que apenas perguntar às pessoas quando elas iriam votar, onde e como pretendiam chegar até o local aumentou a frequência nas urnas. Só de incentivar a pessoa a pensar nisso já provoca na cabeça dela a criação de um plano. Um plano simples, mas um plano.

Como nos Estados Unidos o voto não é obrigatório, comparecer às urnas acaba sendo um problema, um comportamento que precisa ser incentivado.

Novamente é aquilo: as pessoas querem votar, têm a intenção, mas boa parte acaba não comparecendo. Não é muito diferente de querer se manter na dieta, ou ir pra academia, e acabar furando. Só que o impacto é enorme pois as eleições presidenciais são a cada quatro anos, né?

O paper traz ainda outros exemplos de experimentos em saúde, como vacinação voluntária contra gripe, por exemplo. Não tem como ler sem ver brotar várias ideias de aplicação, em várias áreas!

O mais bacana é que os planning prompts são intervenções simples, baratas e eficazes para ajudar as pessoas a fazerem aquilo que elas têm a intenção de fazer, mas não fazem. Um tipo de nudge ou empurrãozinho.

Highlights do paper

Traduzi para registrar aqui alguns trechos do paper. Pra checar as referências a todos os estudos que serviram de base, é só acessar o PDF do artigo que linkei ali em cima.

  1. As pessoas falham em cumprir a maior parte de suas intenções.

  2. Fazer planos concretos ajuda as pessoas a darem continuidade às suas intenções.

  3. Simplesmente perguntar às pessoas se elas pretendem realizar um comportamento benéfico pode torná-las mais propensas a realizá-lo.

  4. Criar um plano de ação supera a tendência das pessoas de procrastinar quando elas têm a intenção de se comportar de maneiras benéficas mas que não trazem gratificação imediata, bem como a tendência de serem excessivamente otimistas sobre o tempo que levarão para realizar uma tarefa.

  5. Ter um plano de ação concreto também ajuda as pessoas a superar o esquecimento, um obstáculo comumente alegado para não dar continuidade às boas intenções.

  6. Comprometer-se a se comportar de certa forma e depois falhar nesse compromisso explícito causa desconforto. Antecipar esse desconforto provavelmente contribui para o fato de que os planning prompts aumentam a execução das intenções.

  7. Os planning prompts se tornam ainda mais eficazes quando demandam que uma pessoa informe a outra sobre um compromisso, como contar sobre o plano a um amigo ou a alguém da família. Isso agrega pressão social aos demais benefícios de ter feito o plano.

  8. As pessoas frequentemente “subplanejam” quando começam com uma intenção muito forte. Elas se confundem ao acreditar que suas intenções muito fortes sejam suficientes para impulsioná-las ao comportamento esperado, e essa crença as mantêm longe de usar estratégias que poderiam de fato traduzir intenções em ações.

  9. Intervenções relacionadas à criação de planos podem ser mais potentes em cenários onde há uma janela de oportunidade estreita para agir.

  10. Adicionar um planning prompt a um lembrete pode impulsionar a execução do que foi planejado tanto quanto o lembrete sozinho.

  11. Pronunciar quando, onde e como alcançar um dado resultado não aumenta o seu cumprimento a não ser que as pessoas tenham (ou sejam persuadidas a construir) uma intenção de buscar esse resultado.

  12. Planning prompts são especialmente eficazes se eles miram em intenções enraizadas em valores individuais das pessoas, em vez de em pressões externas. E são ainda mais eficazes quando as pessoas contrastam como a vida melhoraria se elas alcançarem seus objetivos, comparando com como é a vida hoje.

  13. Planning prompts são especialmente potentes quando guiam as pessoas a terem planos concretos e precisos no formato “se eu me deparar com a situação X, vou agir da forma Y”.

  14. A propensão a planejar é um atributo individual relativamente estável: algumas pessoas tendem a fazer planos regularmente, enquanto outras tendem a não fazer. Quem não costuma fazer planos obtém um resultado melhor com planning prompts.

  15. Planning prompts são mais úteis para tarefas diretas como marcar uma consulta médica, que requer apenas uma ligação, do que para tarefas que demandam múltiplas e descontínuas ações até serem completadas.

  16. Para cumprir tarefas mais complexas, quebrar o trabalho em tarefas menores ajuda, de forma que cada uma possa ser feita por vez. Fazer isso transforma tarefas complexas em simples, que podem ser ajudadas pelos planning prompts.

2 comentários sobre “Querer é poder? O gap entre intenção e ação e os planning prompts

  1. Isabella, obrigada por compartilhar o artigo e trazer alguns pontos aqui. Estou no último ano do doutorado em Filosofia e dadas as circunstâncias atuais têm sido bem difícil manter a concentração e cumprir até mesmo os pequenos planos. Agora, na verdade, sob uma nova luz para mim. Obrigada! E ah, quando já se está um pouco cansado do mundo acadêmico, é sempre bom ver o entusiasmo das pessoas com seus respectivos trabalhos.

    Curtido por 1 pessoa

    • Eu que agradeço o comentário, Taimara! Imagino o baita desafio aí do seu lado, mas já tá quase com o diploma do doutorado na mão, que bacana. Falta pouco agora pra completar o doutorado, né? Um abraço!

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