University of Copenhagen - Behavioral and Experimental Economics

75 horas em Copenhagen, 2 aulas e as primeiras impressões

Ufa! Deu tudo certo. Em meio à pandemia de covid-19, pude entrar na Dinamarca (como estudante) para fazer o curso de Behavioral and Experimental Economics na University of Copenhagen, ou KU, como o pessoal fala aqui (a pronúncia de KU é “kay/you”. Melhor avisar, né).

Vou deixar pra escrever mais sobre minhas impressões da cidade, os lugares, o clima e as pessoas em outro momento (mas o resumo é: tá rolando um match bem legal). Hoje quero compartilhar como foram as duas primeiras aulas! Mas antes vou contar mais um pouco sobre o contexto da pandemia.

Pão doce dinamarquês com café e frutas vermelhas
Dos pães doces ao brunch, do amor pelo café às frutas vermelhas baratas e frescas, da bicicleta às mulheres usando vestidos floridos com tênis: it’s a match!

Por que não precisei fazer quarentena?

Cheguei num sábado e as aulas começaram na segunda. A polícia dinamarquesa não pediu quarentena. Ao contrário, pediu que os estudantes vindos de países banidos chegassem o mais próximo possível do início das aulas. Por quê? Não sei.

Por aqui, aliás, a pandemia parece ter passado. Tudo funcionando normalmente. Muita gente nas ruas, aproveitando o verão. Ninguém usa máscaras. O governo recomenda o uso apenas no transporte público, quando estiver cheio.

Já na universidade, mais medidas foram adotadas. Umas duas semanas antes das aulas começarem, recebi instruções do tipo “não apertar a mão das pessoas”, “higienizar as mãos com frequência”, “não ir pra aula se tiver sintomas” etc. Na sala de aula os alunos sentam de forma intercalada pra manter o distanciamento. E foram criadas escalas para as aulas no laboratório, pelo mesmo motivo.

Fachada da University of Copenhagen - CSS
“Welcome back”, diz a faixa no campus da KU, para receber os alunos na pós-pandemia

O primeiro dia: introdução à economia comportamental

Logo no começo da aula, apresentando o escopo do curso, o professor Jean-Robert Tyran pontuou que presumia que estava ensinando a alunos do mestrado ou PhD em economia e portanto não explicaria conceitos de microeconomia e teoria dos jogos aprendidos na graduação.

A premissa do professor se mostrou verdadeira quando, na sequência, ele perguntou sobre a origem dos alunos, em especial daqueles que não eram da KU (cerca de 15-20% da turma). “De onde você é? O que você estuda?”, ele queria saber.

Quando respondi que era do Brasil, o professor ficou surpreso pelo “long way” até Copenhagen. Mas quando respondi que era jornalista, não economista (como todo o restante da turma), ele não escondeu que ficou mais surpreso ainda. Perguntou se eu tinha alguma preparação em economia. Respondi que vinha estudando por conta própria. (Será que quando fiz o application mandei o diploma da graduação em Administração e por isso me aceitaram? Provável.)

Rapaz, se ainda tinha chance de existir algum centímetro quadrado de zona de conforto pra mim, essa reação dele eliminou completamente.

Vai (mesmo) ser um curso bem difícil. Sei que sou meio sem noção com algumas coisas, mas às vezes até eu me impressiono com minha coragem. Sério.

O lado bom foi que nessa hora ele já meio que recomendou que eu me juntasse aos alunos “more experienced in economics” (todos?) para termos “complementary skills” (a forma educada dele de dizer que sou café com leite?). Recebi alguns olhares e sorrisos fofos e nessa hora soube que não precisaria me preocupar em estar em um ambiente acadêmico hostil. Não estou.

Por mais que eu esteja ciente da minha condição não tão favorável, deixo registrado aqui: não pretendo descer a régua, não. Tô na chuva e vou me molhar inteirinha, até pingarem parâmetros de otimização das minhas roupas 😂

Depois de colocar minhas expectativas lá no chão, supreendentemente consegui acompanhar 100% da primeira aula com bastante facilidade. E que aula! O professor é ótimo. Pensamento super claro. Visão crítica. Bom-humor. Adoro.

Mas sei que a primeira aula não foi um bom parâmetro do curso. Já tenho muita familiaridade com economia comportamental, mesmo que de uma perspectiva muito mais da psicologia que da economia.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção na aula, além da eterna treta intelectual metodológica psicologia x economia (agora apresentada do ponto de vista de um economista), foi o fato de que a experimentação em ciências sociais é muito questionada — o que pude aprofundar nestes três papers:

Bom, nesse primeiro dia, duas pessoas simpáticas vieram falar comigo, após a baita exposição que o professor me deu, né. Um argentino (já em Copenhagen há anos), que se apresentou como “meu vizinho”. E um dinamarquês, que me contou que tem um irmão brasileiro e seu pai já se casou duas vezes com brasileiras, então ele entendia alguma coisa de português. Disse a ele que iria testar o vocabulário dele. E ao argentino, falei que podemos tentar conversar em espanhol (ele ficou todo feliz, mas aposto que após a primeira tentativa, vai acabar preferindo voltar pro inglês mesmo, haha).

O segundo dia: laboratório de economia experimental

Poder conhecer um laboratório real de pesquisa experimental em economia era uma das coisas que mais me empolgava para o curso!

Mas não se iluda pela minha empolgação. Não pense em equipamentos elaborados. Um laboratório de economia experimental nada mais é que uma sala cheia de computadores separados por uma barreira física, de maneira a garantir que o participante não vai espiar o coleguinha do lado na hora de fazer suas tarefas de tomada de decisão.

Laboratório de Economia Experimental da University of Copenhagen
Eu como participante esperando o experimento começar. O software no LEE é da z-Tree

O que eu estava ansiosa é para ver os métodos, conhecer os tipos de experimento, o software utilizado, os outputs. E isso aconteceu já na segunda aula!

Após algumas explicações sobre como são realizados experimentos no Lab of Experimental Economics (LEE) da KU, e também orientações sobre os assignments que iremos preparar analisando os dados gerados pelos experimentos, chegou a hora de brincar de participante e ir pro lab.

O primeiro experimento foi de mercados. Parte das pessoas eram vendedoras, outras eram compradoras. Eu era um buyer. Na simulação de um mercado, tínhamos que tomar uma sequência de decisões em um curto período de tempo com o objetivo de fazer operações (trades) vantajosas financeiramente.

Os compradores têm um valor atribuído ao bem e querem comprar por um preço menor. Já os vendedores têm um preço mínimo de venda que equivale ao custo do bem, e querem vender por um preço maior.

Curti muito a experiência e confesso que ao final de algumas rodadas de mercado já estava me sentindo meio num joguinho. O professor disse que vai compartilhar com a gente amanhã o ranking dos participantes pela quantidade de dinheiro (no caso, pontos) obtido.

Depois participamos de uma segunda demonstração, um experimento de tomada de decisão a partir de contextos hipotéticos. Pena que várias das perguntas apresentadas eu já conhecia, eram de experimentos clássicos de Kahneman e Tversky, Thaler e cia. Então não deu pra me sentir uma participante “de verdade” nesse segundo.

Logo mais o professor irá disponibilizar os dados dos experimentos para que possamos trabalhar em nosso primeiro assignment: uma interpretação bem estruturada, a partir de uma análise quantitativa, do que aconteceu ali. Amanhã vou me reunir com duas colegas de classe dinamarquesas após a aula para trabalharmos nisso.


Fiquei feliz de ter compartilhado em detalhes como foram esses dois primeiros dias, mas não tenho esperanças de que vou conseguir manter esse ritmo. O conteúdo vai ficando mais difícil e, como peixinho fora d’água que estou, vou precisar me esforçar bastante estudando fora do horário das aulas pra ter o resultado que espero.

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