Janelas quebradas e o comportamento humano

Quem vai de carro de São Paulo para a zona sul do Rio passa por uma experiência constrastante e que não se pode ignorar, que é sair da Dutra e entrar na Linha Vermelha. Eu passo por essa experiência algumas vezes por ano — nunca muda. Enquanto a Dutra, via pedagiada, mantém boas condições de asfalto e sinalização, a Linha Vermelha, mantida pela Prefeitura, é uma coletânea de buracos, asfalto irregular, bolsões de água quando chove, falta de sinalização, e margens mal cuidadas. Não tenho dados sobre, e não sei se é cabível a comparação, mas acredito que a Linha Vermelha seja sede de mais crimes violentos (como arrastões) proporcionalmente à Dutra.

Quando estudei Behavioral and Experimental Economics em Copenhagen, um dos temas do curso era cooperação e tomada de decisão relacionada a bens públicos. Lá, estudei algumas pesquisas experimentais que, por sua consistência de resultado, acabaram dando corpo ao que se chamou de teoria das janelas quebradas, ou broken windows theory. A ideia geral é que lugares degradados e mal cuidados tendem a exibir maior índice de criminalidade e violência do que lugares bem cuidados.

É muito curioso isso, pois em tese um lugar ser bonito e um lugar ser seguro deveriam ser eventos independentes, descorrelacionados, certo? No entanto, evidências dão conta de que as pessoas ajustam seu comportamento de acordo com o quão bem cuidado ou não é um lugar. Isso vale para a prática de crimes mas também para comportamentos corriqueiros como jogar o lixo no chão ou na lixeira. Para conhecer seis experimentos de campo realizados dentro deste tema, recomendo a leitura deste paper publicado na Science em 2008: The Spreading of Disorder.

Em ciências comportamentais falamos muito que às vezes é preciso incentivar as pessoas a se comportarem da maneira certa pelo motivo errado. Enquanto realizava ontem mais um percurso pela (não visualmente aprazível) Linha Vermelha, fiquei me perguntando se uma intervenção para melhorar a aparência da via poderia ter como efeito colateral o aumento da segurança pelo desincentivo a crimes no local, como propõe a teoria das janelas quebradas.

Voltando do aeroporto de bicicleta

Isso me lembrou uma aventura minha logo antes de voltar de Copenhagen para São Paulo. A Dinamarca é o quinto país mais seguro do mundo, de acordo com o Global Peace Index. Em meu último dia na capital, precisei desocupar o apartamento onde estava hospedada pela manhã, mas meu voo era só à noite.

Decidi então levar minhas malas para o guarda-volumes do aeroporto e voltar pra perambular um pouquinho por aquela cidade que eu tanto apreciei. Fui de metrô, mas decidi voltar de bicicleta. Eu diria que voltar do aeroporto de bicicleta é uma experiência não recomendável para todos os outros aeroportos onde já desembarquei, por geralmente serem locais mais afastados da cidade e, portanto, desertos e potencialmente perigosos.

Eram cerca de 9 quilômetros (e eu adoro pedalar mesmo!), mas o que eu queria era conhecer as regiões periféricas da cidade. Saber se elas eram bonitas, limpas, bem cuidadas e se transmitiam a mesma sensação de segurança da zona central.

Sim, era tudo isso e mais um pouco. Parei até pra tirar foto de uma macieira linda no meio do caminho (o foco aqui não é na macieira em si, mas em eu me sentir segura de parar pra esticar meu celular e tirar uma foto). Não pude deixar de pensar no tema das janelas quebradas.

Casa bagunçada e procrastinação

Antes de finalizar, vou extrapolar essa ideia para o ambiente particular de dentro da minha casa. Por aqui temos a sensação que, quando a casa está bagunçada, não conseguimos ser tão produtivos no trabalho. A desordem parece correlacionada com a procrastinação — apesar de, em tese, serem coisas totalmente independentes (bem como a beleza de um lugar e seu índice de criminalidade).

Esses exemplos mostram como a influência do ambiente sobre nosso comportamento é realmente poderosa, embora a gente tenda a minimizar isso.

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