“Why not an MA instead of an MSc?”

Tendo a acreditar que nada é mais eficaz que a inércia pra influenciar comportamentos. Primeira Lei de Newton, né.

Não que seja algo necessariamente ruim. O mundo suga nossas energias, e precisamos economizá-las. A própria natureza funciona assim: busca sempre o caminho do menor esforço.

Há situações, no entanto, em que é preciso escapar da inércia para correr atrás do que se quer — embora o mundo nem sempre facilite as coisas para quem trilha esse caminho.

Neste texto vou relatar um episódio que me fez refletir sobre o incentivo enraizado ao status quo que existe na educação formal, no mundo acadêmico. Esse episódio se resume na pergunta do título acima, e essa pergunta eu ouvi de um professor, em uma entrevista. Mas preciso dar um pouco mais de contexto primeiro.

Há um ano planejando…

Meu gap year completa um “year” de fato agora no final de março. Uma volta inteirinha em torno do sol vivendo novas experiências e planejando meus caminhos profissionais no futuro.

A inesperada pandemia, que veio na comissão de frente abrindo meu gap year, forçou ajustes nos planos. Mesmo assim, como eu estava preparada, coisas boas aconteceram, e sinto que consegui ir muito além do que esperava e extrair muitas experiências construtivas desse período.

Uma das coisas que precisei ajustar foi a experiência com pesquisa acadêmica em um laboratório de neurociência e cognição social, que acabou não rolando. Porém, antes mesmo de iniciar o gap year, eu já vinha flertando com a ideia de fazer um mestrado no exterior em Behavioral Science. É o que chamam lá fora de Master of Science, ou MSc.

Isso porque, sondando posições em empresas norte-americanas que aplicam ciências comportamentais ao negócio, descobri que um MSc ou um PhD na área quase sempre apareciam como pré-requisitos. Justo — um preparo adequado em metodologia experimental e o rigor típico vindo da academia são importantes nessa área. Afinal, um dos principais objetivos é identificar relações de causalidade a partir de hipóteses sobre o comportamento humano, e isso pode ser complexo. Bem complexo.

Portanto, faz bastante tempo que comecei a me preparar para isso e coloquei o MSc como um objetivo. Sabia que era concorrido, e receava talvez não ser uma boa candidata para as escolas.

…e deu certo o MSc em Behavioural1 Science!

Deu (muito) trabalho, deu (muita) ansiedade, mas fiquei (MUITO) feliz ao ser aceita para os dois primeiros cursos para os quais me candidatei: o MSc em Behavioural Economics da City, University of London; e o MSc em Behavioural Science da London School of Economics (LSE).

Tô muito feliz. Se tudo der certo, inicio em setembro meus estudos na LSE, que era minha primeira opção em uma lista de oito cursos. Já falei que tô muito feliz? Tô muito feliz!

MA x MSc

Agora que já contextualizei, posso voltar ao tema da inércia.

Como etapa do processo de application para um dos cursos, um professor solicitou uma entrevista comigo. Ele, matemático com PhD em Microeconomia, queria basicamente testar minha capacidade de dar conta do curso, dado que não tenho experiência anterior relevante com métodos quantitativos.

Em outro texto posso falar mais das skills importantes para a formação em ciências comportamentais e economia comportamental — por ora basta saber que ser capaz de aplicar métodos quantitativos ao objeto de trabalho é uma delas. E tem a ver com a busca rigorosa por relações de causalidade que comentei acima.

Pois bem. Logo no início da entrevista, depois de eu comentar meu background e interesses, o professor me fez a pergunta do título: “Why not an MA instead of an MSc?”.

É difícil traduzir exatamente MA e MSc porque são classificações de cursos de mestrado que não existem no Brasil. Um Master of Arts (MA) geralmente é um curso mais de humanas, e um Master of Science (MSc) inclui componentes de exatas ou biológicas, por exemplo.

O que o professor queria saber era: por que não fazer um mestrado em humanas, em linha com minha formação e background profissional? Por que me meter a fazer um curso que vai me demandar skills que podem ser novas e diferentes do que eu já estava acostumada?

A resposta foi simples e estava na ponta da língua: escolhi o MSc porque, para me desenvolver a carreira que quero, não existe um MA que me prepare com o conhecimento e habilidades de que preciso. Não estou fazendo um curso pra ter um diploma. Não vou escolher o caminho mais fácil. Estou fazendo um curso pra aprender e exercitar tudo aquilo que preciso aprender e exercitar. Essas três últimas frases não falei, não. Só pensei.

A entrevista continuou com um microteste inesperado de matemática e estatística. “I have to formally assess how you deal with quantitative problems”, ele explicou.

Por que desviar?

Deu tudo certo no final, mas desde então não consigo tirar da cabeça a pergunta que ele me fez. Ela parece presumir ser esperado que uma pessoa continue estudando o que sempre estudou. Que siga em sua carreira por um caminho sempre linear. Que continue numa certa inércia de delimitação de horizontes, dentro de uma caixinha. E que não transite entre diferentes campos do conhecimento.

Posso estar viajando? Posso. Talvez ele tenha perguntado com alguma outra intenção? Talvez tenha mesmo2. Mas me senti o peixinho fora d’água, a diferentona, e esses sentimentos sem dúvida contribuem muito para manter as coisas como são, para evitar as mudanças, e para que as pessoas sigam caminhos mais seguros e lineares em suas carreiras já que os desvios de rota não são incentivados.

Claro que seguir sempre o mesmo caminho também é extremamente importante. É assim que se obtém verdadeira especialização. É assim que se explora em profundidade alguns problemas. Mas nem todos os problemas atuais da sociedade são resolvidos por apenas um campo do conhecimento. A interdisciplinaridade é necessária para aplicar ciência a contextos complexos.

Apesar disso, o que extraí da pergunta foi: se você começou por um caminho, tende a continuar por aquele caminho. Por que desviar?

No meu caso, o próprio caminho que eu percorria me mostrou que existem rotas diferentes para meus objetivos, mais aderentes à minha motivação. Identifiquei trilhas mal demarcadas levando a caminhos alternativos que pareciam mais interessantes. Fiquei curiosa, empolgada e decidi desviar o caminho. Foi também por isso que escolhi o MSc, professor.


1 Esse negócio britânico de escrever behavioural com u… Vou precisar me acostumar.

2 O próprio professor, de acordo com o que descobri stalkeando seu currículo, não deixa de ser um exemplo de desvio de rota: saiu da matemática e foi pra economia. Usando matemática pra desenvolver conceitos de microeconomia – fato. Mas não posso dizer que sua própria carreira foi exatamente linear. E, também contra minha argumentação, um mestrado tradicional em economia se chama MA geralmente.

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