Montagem de fotos com xícara de café, livro, notebook, biblioteca e globo da LSE

Como é o treinamento de um cientista comportamental?

100 dias atrás, desembarquei em Londres. Mudei pra cá temporariamente pra me dedicar a uma das decisões mais importantes de carreira e de vida: meu treinamento como cientista comportamental.

Olha, nem sei que palavras escolher pra descrever esses dias. Se soubesse, seriam palavras cuja soma é positiva. Muito positiva. Tá tudo acontecendo ao mesmo tempo, mas tá dando pra navegar. Lugares, idioma, sotaques, cultura, normas sociais, pessoas, situações, o clima. E agora enquanto escrevo me toquei que, desses 100 dias, em 19 estive em isolamento social1.

Protagonizando e dando razão a isso, a experiência acadêmica. Novos conceitos, ferramentas, maneiras de ver o mundo. Uma régua colocada lá em cima, reading lists intermináveis, discussões e ideias sem fim. Estar rodeada de pessoas muito inteligentes e dedicadas. Aquela sensação tem me acompanhado todos esses dias: quanto mais sei, menos sei. Sabe muito esse tal Sócrates. (Pera. Ou nada sabe ele?)

Sem mais delongas, vou agora me esforçar pra entregar o que prometi a você no título: um resumo do que consiste o core do treinamento de um cientista comportamental.

A partir da experiência que venho construindo como aluna do programa Master of Science in Behavioural Science da London School of Economics, posso resumir que o treinamento de um cientista comportamental, ou behavioral scientist2, é centrado mais ou menos no seguinte:

Aplicações Quantitativas

Ciência comportamental é o estudo científico do comportamento humano: como e por que as pessoas agem e interagem do jeito que fazem. Pra responder a perguntas dentro desse escopo, recorremos à inferência causal e a métodos empíricos.

O mundo que resulta das decisões e comportamentos humanos é naturalmente complexo e cheio de fatores. Você, ser humano, se conhece e sabe do que estamos falando. Por isso, essa não é uma tarefa simples. Exige método, rigor, muito senso crítico e atenção ao detalhe.

Avaliar se a mudança em uma variável implica em resposta de outra variável, controlando para todos os outros aspectos relevantes que podem influenciar nessa relação.

Podemos dizer que algo causa uma resposta comportamental? Se sim, qual é o tamanho do efeito desse algo? Esse efeito é estatisticamente válido?

O estudo das aplicações quantitativas em ciência comportamental envolve muitos testes estatísticos e o entendimento de diferentes métodos. Toda relação de causalidade pode (e deve) ser representada matematicamente. O tipo dos dados disponíveis e a pergunta de pesquisa ajudam a determinar qual(is) método(s) de análise são os mais apropriados.

Pra não entendiar você com uma lista de tópicos e ementas do curso, peguei os nomes das aulas de Quantitative Applications in Behavioural Science e criei uma nuvem de palavras:

Nuvem de palavras de aplicações quantitativas em ciências comportamentais

Fundamentos em Ciência Comportamental

Em suas origens, a economia e a psicologia tinham bastante em comum. Pra quem curte, é só pensar nos trabalhos de Adam Smith e David Hume, que de certa maneira fincaram as raízes das ciências comportamentais. Hume, aliás, meu filósofo preferido e muso inspirador desde muito antes de eu imaginar que estaria estudando essas disciplinas.

Com o tempo, os dois campos de conhecimento se afastaram e criaram trajetórias independentes. A ciência comportamental reflete a reconvergência das duas disciplinas.

Apesar de relativamente recente, existem muitos modelos teóricos e conceitos já desenvolvidos, os quais precisam ser compreendidos e incluídos no repertório de quem estuda ciência comportamental. A compreensão deles é obtida, principalmente, por meio de trabalhos publicados, os papers — a língua falada pela ciência.

Alguns exemplos de tópicos fundamentais em ciência comportamental: tomada de decisão sob risco, intertemporal e social; heurísticas e vieses; nudging e boosting; sludging; questões éticas; influência das emoções na tomada de decisão.

Traduzir a teoria em aplicações práticas é o alvo do cientista comportamental. Pra isso, é preciso real calçar as sandálias da humildade. Replicabilidade, escala e particularidade de contexto são desafios claros.

Segui de novo a lógica da nuvem de palavras pra sintetizar em algumas palavras-chave, mas aviso logo que já tô sofrendo porque os títulos das aulas de Foundations in Behavioural Science são meio genéricos e suas palavras trazem muito pouco perto do repertório do curso. Mas bora lá:

Nuvem de palavras de fundamentos em ciências comportamentais

Desenho Experimental e Métodos

Experimentos são a maneira mais eficaz de medir causa e efeito. Ok, há controvérsias. Sempre há.

Existem os randomized controlled trials (RCTs), e outros métodos chamados de “quasi-experimental”, que emulam experimentos naturais a partir de dados existentes.

Sendo um experimento desenhado ou “encontrado”, o fato é que um cientista comportamental precisa ser capaz de desenhar experimentos capazes de simular o caminho não percorrido, o tal do contrafactual. Pra assim, então, entender qual teria sido o efeito na ausência da variável que assumimos que o causou. Eu falo variável no singular pra simplificar, mas a coisa toda (o modelo?) pode ficar bem complexa.

Saber randomizar adequadamente, determinar tamanho de amostras de acordo com o tamanho do efeito que se espera, fugir do viés de seleção, decidir os melhores tipos de experimento num espectro amplo entre laboratório e campo, executar com MUITA atenção aos detalhes.

Criatividade para compreender o problema, conectar com os conhecimentos de fundamentos, construir sobre os ombros dos gigantes, e elaborar hipóteses que possam ser testadas com métodos adequados.

Entender que X causa Y não é o suficiente. Há moderadores ou mediadores nessa relação? Como eles atuam? Qual o mecanismo que explica a causalidade?

E aí está a última nuvem sintetizadora:

Nuvem de palavras de design experimental e métodos em ciências comportamentais

Dominar inferência causal. Construir um rico repertório teórico de literatura científica. Definir problemas e hipotetizar soluções. Testar as hipóteses. Criticar. Ajustar. Explorar possibilidades de aplicação.

No fundo, o treinamento de cientista comportamental é como um treinamento de método científico. Imagino que um dos meus maiores desafios após concluir essa experiência será conseguir manter o rigor e controle científicos diante dos enormes desafios, demandas e complexidade do mundo real. Mas tô empolgadona!


1 Quando cheguei na Inglaterra, o Brasil estava na chamada red list e a política era ficar em total isolamento por 10 dias e 11 noites em um quarto de hotel gerenciado pelo governo do Reino Unido. Há poucos dias, fui notificada pelo sistema de saúde daqui que deveria quarentenar de novo: estive em contato próximo com alguém que testou positivo (o bluetooth não deixou passar), e ainda não tinha completado o esquema vacinal daqui. Mesmo testando negativo, precisei me isolar de novo.

2 Ou behavioural scientist se você tá escrevendo com inglês do Reino Unido. Pra que isso, né?

6 comentários sobre “Como é o treinamento de um cientista comportamental?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s